domingo, 17 de junho de 2012

Hecate - Parte II - As Origens

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Hekat, divindade egípcia simbolizada por uma mulher com cabeça de rã, é uma Deusa primordial. Aquela que surgiu no início dos tempos, na criação, e que fez parte dessa mesma criação. É a senhora dos pântanos, dos lagos, da gestação (da lama primordial (união da terra e da água), e por isso das águas uterinas. A rã é uma figura representativa de fertilidade e abundância, encontrada não só na mitologia egípcia, mas amplamente em muitas outras. Ela é a grande parteira, a que dá à luz e abençoa a gestação. Simultaneamente, tal como a rã, representa também a terra, o útero e sepultura de todos os seres. Assim, é a senhora das passagens (encruzilhadas), a que traz a vida, a morte, as transformações. A curandeira, a que, tal como a água e a terra regenera, cura, e transmuta a vida em morte e a morte em vida.

Estes ciclos são não apenas físicos, mas psíquicos. Ela mergulha para dentro do pântano, levando-nos com ela, até à suavidade da lama, à escuridão profunda das águas. Aí, deixamos partir e transformar-se o que tem de morrer, e renascemos, dando à luz novos aspectos de nós mesmos, regressando à superfície em flor, como o lótus enraizado no fundo do lago, alimentando-se desta mesma lama e escuridão, e que surge luminoso, aberto e perfumado à superfície das águas. Ela é a senhora da Magia, a grande sábia, que vê além do visível, é, por isso, e uma vez mais ligado ao elemento água, a senhora dos sonhos, do subconsciente e das emoções profundas. No entanto, ela é clarividente, ela vê simultaneamente o visível e o invisível, e é desta supra percepção que ela concede a sua bênção, muitas vezes da forma menos e evidente, mas com sentido mais profundo.

Hécate, como é chamada mais tarde na Samo-Trácia, torna-se nesta zona uma grande deusa, com todas as características anteriormente referidas excepto a cabeça de rã. Aqui, ela é simbolizada pela Lua, a Terra e a noite primordial onde tudo tem origem e a onde tudo regressa. Esta noite primordial é muitas vezes mencionada em várias tradições de meditação, que se referem ao ser humano e à existência como a noite por onde passam planetas, astros, noites e dias, mas que se mantém a íntegra essência, para além e na origem de todas as coisas.


Na Grécia, Hécate é a Deusa-Tríplice Lunar, incorporando as características de Virgem (quarto crescente), Mãe (Lua Cheia) e Anciã (minguante). Surge assim associada a Artémis (quarto crescente, a caçadora, a que alivia as dores, a justiceira, a parteira), Selene (a Lua cheia, a Mãe, a que dá à luz, nutre e cuida). Das três apenas Artémis era uma Deusa principal.

Hécate surge também ligada a Perséfone (virgem) e Deméter (Mãe). Apesar de ser, por fim, associada como o resultado da Trindade Ártemis (Jovem), Deméter (Mãe) e Perséfone (Anciã - não pela idade, mas pela condição de Rainha do Tártaro).

Perséfone é a amada filha de Deméter. Enquanto colhia flores num prado, a jovem donzela é raptada por Hades, senhor do sub mundo, que a mantém secretamente cativa, levando a que sua mãe, Deméter, deambule em desespero por toda a Terra. Senhora dos cereais e alimento, a grande mãe Deméter, mortificada pela sua tristeza, priva todos os seres de alimento, uma vez que nada mais nasce da terra. Hécate auxilia então Deméter, pois sendo a sábia, ela é a testemunha, ela observa tudo o que acontece, e a partir desta contemplação, ela aconselha, e a acção acontece. Assim, Deméter sabe por Hécate o sucedido a Perséfone. Zeus, que havia autorizado este rapto a seu irmão, decide então interferir uma vez que a privação de alimento aos seres vivos se torna insuportável. É feito um julgamento no Olimpo, onde é decidido que Perséfone pode regressar para junto de sua mãe, desde que não tenha ingerido nenhum alimento nos infernos. Porém, Perséfone comeu alguns bagos de romã (fruto associado às travessias do espírito), e assim, passa duas partes do ano à superfície, junto da Mãe (quando a terra floresce), e duas partes no sub mundo, junto de Hades, que se torna seu esposo (quando a terra cessa de florescer e aguarda).

Apesar de ser uma presença bastante secundária e apenas referenciada, neste mito, encontramos a essência de Hécate, tal como foi cultuada previamente na Trácia. Ela é aquela que atravessa o sub mundo. Este reino representa a escuridão, as trevas, é o reino da morte e dos mortos, dos nossos instintos básicos, sonhos, comportamentos inconscientes, o reino das experiências dolorosas, das dúvidas, mas também o reino da escuridão profundamente transformadora, como a escuridão do ventre que gera a vida. Assim, Perséfone, a partir das suas experiências de dor, torna-se a guia, a que orienta e aconselha aqueles que fazem a sua travessia pelo sub mundo. Deste modo, deixa de ser virgem e passa a ser simultaneamente a Mãe e a anciã.

«A mãe dá à luz a filha, e a filha dá à luz a Mãe». Perséfone cresce, amadurece, e liberta a sua mãe do elo de dependência e apego que as unia, libertando-se simultaneamente a si mesma. Ambas entram numa nova fase de vida psíquica Em algumas versões do mito, Perséfone desce ao sub mundo gritando e em pranto, mas antes de regressar à superfície aceita de livre vontade comer alguns bagos de romã garantindo assim o seu regresso. Através desta experiência violenta, ambas entram numa nova fase de vida psíquica, mudando de arquétipo. Isto é o que acontece durante a adolescência, quando o mundo interior se mostra, levando a jovem a ter perspectivas de vida diferentes das anteriores e impondo o derradeiro corte do “cordão umbilical” de forma muito definitiva. Frequentemente, é um processo simultaneamente doloroso para a Mãe e para a filha (o), mas também muito necessário, uma vez que ambas se tornam independentes e a relação pode evoluir num sentido de partilha e amizade. Muitas vezes, Demeteres obstinadas recusam este processo, e Perséfones frágeis vivem esta fase de trevas por um longo periódo que pode prolongar-se indefinidamente pela vida adulta.

O arquétipo da Mãe não se refere somente a maternidade física, mas também à mulher que cura, que transforma. O arquétipo da Mãe pode ser o de mulheres artistas, cujos filhos são as suas obras de arte, de médicas e enfermeiras, que dedicam a vida a curar os outros, de místicas, ou de qualquer mulher que apoie e guie os outro directa ou indirectamente. O arquétipo da mística e da artista cruzam-se também com os da virgem e da anciã, uma vez que exploram territórios virgens de si mesmas, e criam através desta experiência, abrindo as portas da percepção, oferecendo orientação de forma directa ou indirecta, a partir das suas acções ou pela inspiração que as suas obras despertam. Frequentemente, são mulheres solitárias, viajando, tal como faz a anciã, pelos terrenos mais inóspitos da psyche, compreendendo a sua natureza, e permitindo que os ciclos de renovação tenham lugar.

Nesta passagem, Perséfone torna-se madura e sábia, deixa de ser a vítima e passa a ser a testemunha, a que observa e auxilia, e é ela quem orienta as almas dos mortos e perdidos (desde os que passam por uma fase de transição nas suas vidas, até dissidentes e criminosos), tornando-se Hecate. Na verdade, estas três deusas são uma apenas, tal como a lua tem quatro fases, sendo apenas uma. A quarta fase da Lua é a lua oculta, e por isso não presente no mito, a fase negra e secreta onde se dá a transformação da vida em morte e da morte em vida.

Hécate é, por isso, a senhora das encruzilhadas. Ela tem três reinos, a todos conhece mas não domina nenhum (na mitologia grega estes reinos são posse de figuras masculinas, uma adulteração do mito trácio original) : os céus, a terra e o sub mundo, ou a terra, o oceano (que representa o submundo, uma vez que é o reino das emoções, sonhos e inconsciente) e os céus. Ela está para além da posse ou do ego, ela é a sábia, a anciã, a senhora do visível e do invisível (Magia e profecia), o útero, a sepultura, a alquimia. Ela é a Mãe Negra (sub mundo, conhecimento profundo, magia), a Mãe Vermelha (passagens, mistérios do sangue, parteira), e a Mãe Branca (sabedoria, pureza, compaixão). Ela aguarda na encruzilhada e observa: três vias, o passado, o presente, e o futuro. Ela não se precipita, fica na encruzilhada e observa, o tempo que for preciso, até uma direcção ser tomada. Ela não escolhe a direcção, nós escolhemos. Ela oferece apenas a sua sabedoria e profunda visão. Sendo a testemunha, aquela que observa, ela é muitas vezes invisível, representando a unidade invisível, para além de todas as coisas e acções, e a sua parte essencial (a definição de Tao).

É frequentemente representada com uma reluzente cabeleira de estrelas, com a Lua ornando-lhe a fronte, ou com a capa negra da noite. È por vezes representada pela figura da velha caminhante, disfarçada na figura da mendiga que percorre caminhos (peregrina). Surge também representada com três cabeças e três pares de braços, cada cabeça olhando numa direcção diferente, segurando nos braços três tochas, uma chave, uma corda e um punhal. Representando a clarividência, a que ilumina e observa em todas as direcções, a que abre e atravessa todas as portas, o cordão umbilical, a parteira, mãe, e senhora da ressurreição e regeneração, e a faca, o poder ritual, a capacidade de pôr fim, de ver para além das ilusões. Surge associada a duas combinações de três animais: o cão, a serpente e o leão, bem como o cão, o cavalo e o urso. Surge também associada à rã, à coruja e ao lobo. É o arquétipo de La Loba, da osseira, da trapeira, que recolhe ossos e trapos reconstruindo-os para voltar a dar-lhes vida.

As suas árvores são o teixo, o amieiro, o choupo e o cipreste, as suas ervas alfazema, arruda e artemísia. Estas plantas são associadas a Hécate enquanto senhora dos portões entre o mundo dos vivos e o mundo subterrâneo das sombras. O teixo e o cipreste estão associados à imortalidade, intemporalidade e eterna juventude, sendo a morte encarada como passagem transformadora e não fim assustador e definitivo (esta significação tem origem na própria terra que dá vida, dá a morte e transforma os frutos caídos em alimento, fazendo renascer as sementes que guardam no seu núcleo). A alfazema está associada à transformação e cura, a arruda à purificação e transmutação, a artemísia á purificação, clarividência, sonhos e profecia.

Hécate é uma das figuras mais ignoradas na mitologia grega, onde surge apenas mencionada nos mitos de Perséfone e Deméter. É uma das figuras posteriormente mais incompreendidas e negativizadas. Com a implementação do patriarcado, passou de sábia bruxa a feiticeira temida, de anciã a velha assombrosa. A morte transformou-se de passagem natural em algo de temido, o sub mundo dos sonhos e experiência emocionais tornou-se um inferno incandescente. Os seus poderes mágicos, associados à profunda manifestação da espiritualidade, ciclos e sabedoria feminina, bem como a conexão com a terra e ciclos da natureza foram oprimidos, condenados e suprimidos. O lobo passou a ser um animal demoníaco, a serpente tentou Eva, e é esmagada sob os pés de vários santos cristãos, “grande cadela”, um dos seus epítetos, passou a ser um insulto feroz. As parteiras forma gradualmente desaparecendo, sendo milhares de mulheres queimadas nas fogueiras pelos seus conhecimentos, e ainda hoje a parteira é alvo da desconfiança geral. A anciã tornou-se a velha, a mulher na terceira fase da vida, sendo inútil ou louca. Na sociedade actual, frequentemente, a velha não tem lugar, está a mais. A virgem passou a ser a única figura feminina louvada, sendo a concepção e o sexo, outrora supremamente sagrado, tidos como pecados, sendo a mulher o seu veículo maior. O corpo redondo da mãe e experiente da velha tornou-se anti estético. A Magia, manifestação e vivência da espiritualidade feminina individual ou em grupo, com ou sem doutrina específica definida tornou-se alvo de temor, e consequente perseguição.

Outro aspecto de Hécate que a tornou temida nas sociedades patriarcais, é o facto de ser uma Deusa viajante e sem consorte, independente, íntegra, sábia mas sem nenhum relacionamento com a figura masculina.

Hoje, assistimos ao ressurgimento de Hécate, a partir de muitas gerações de activistas femininas que tornaram possível afirmarmos actualmente que não somos feministas. A sua acção foi extremista, mas extremamente necessária para a liberdade que hoje temos, e que toma sentidos crescentemente mais profundos. Resgatamos a Lua que nos inspira, a terra que pisamos, os ciclos que vivemos. A glorificação das nossas experiências e do nosso mundo interior manifestado de forma livre e sábia.

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