sábado, 8 de outubro de 2011

A Bruxa


(Trecho retirado do livro que estou escrevendo... A.A.)

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      Talvez seja essa a personagem infantil mais internacional de todas. Em todo lugar há menção de uma personagem com poderes mágicos, que viva na floresta, que lide com ervas e que saiba das coisas. Em algumas ela é feia e má, em outras é feia e boa, ou bela e má ou ainda bela e boa. Mas da onde vem a bruxa? Quem ela é? O que ela faz? A quem ela serve? De onde vêm seus poderes?
          Essas perguntas talvez já tenham recorrido em muitas pessoas, afinal o mito, a lenda, o personagem existe, mas ninguém sabe explicar de onde ele veio. Para isso, é preciso desmistificar as coisas e achar as passagens culturais em cada um dos personagens. Vamos então ao que concerne a cultura ocidental:
            A palavra portuguesa “bruxa” assim como a palavra espanhola “bruja” derivam da mesma origem etimológica: a palavra gaulesa de gênero neutro “brixton” que significa luz, brilho, sabedoria, encanto; portanto o brixton seria aquele que erradia luz, sabedoria e domina as artes mágicas, daí o “saber encantar”. Já a palavra francesa “sorcière” vem do latim “sorceres” que significa aquele que profere, que professa. A palavra inglesa “wicth” vem do irlandês antigo “wicca”(masculino) e “wicce” feminino com o mesmo significado de brixton.
            Mas se a palavra vem ou significa algo tão bom, de onde surgiu a bruxa má? E quem é essa bruxa a que as palavras se referem? Quando ela existiu?
            No tempo antigo, muito antes da Igreja Católica existir, a bruxa não era boa nem má, ela era o equilíbrio, mas o que ela fazia podia ser tido por bom e mal. Na verdade, no mundo antigo bondade e maldade existiam juntas, ao mesmo tempo, nas mesmas pessoas; como todo humano de fato é, são as ações e, mesmo assim de forma relativa, que são passíveis de julgamento moral. Essa mesma bruxa, geralmente vivia em vilarejos, em casas simples e perto da floresta, geralmente eram letradas ou conheciam muito bem as lendas de cor, sabiam sobre o céu e a terra; e contava o tempo, sabendo a época da chuva, da seca, do calor, do frio. As bruxas sabiam remédios de cura, de encantos e magias para várias utilidades. Eram os grandes bruxos e bruxas que se tornavam conselheiros de vários reis e centrais na vida de um povoado. Eles conheciam a natureza, e sabiam as mais avançadas técnicas de arado, colheita, e tudo mais. Os bruxos do passado eram grandes cientistas, mas viviam em dois mundos; eram eles os condutores entre o mundano e o mágico/espiritual.
            Geralmente por serem ligadas a magia e ao sobrenatural os bruxos e bruxas do passado eram seres noturnos, pois a magia sempre foi relacionada aos mistérios femininos, à noite, à lua e ao fogo. A magia é um mistério e por isso seu lar é o que existe de mais misterioso no mundo, o escuro – que no passado jamais foi considerado o mal, na verdade o escuro é um lugar onde sua visão tem nenhum ou pouco poder, portanto, você precisará sentir, o que se relaciona totalmente com a magia, já que ela (apesar de poder ser vista pelo nosso subconsciente) é invisível, mas totalmente sensível; por isso, a magia seria o mais alto escuro, aquele que abriga dentro de nós mesmos e que se reflete principalmente na Noite sem Lua, daí o fato das bruxas serem noturnas, misteriosas e chamadas de negro e o que também explica a dualidade presente nas divindades da Lua Negra[1], assim como seus dotes e regências sobre a magia.
            Ora, sabendo disso temos a bruxa montada: gosta de preto, noturna, conhece a natureza, é cercada de animais, cultua a Lua e usa o fogo com instrumento. Espera aí, mas essa não é a bruxa medieval, a malvada? Sim, é exatamente a mesma. A diferença é que na Idade Média, a Igreja Católica imperava sobre a Europa e proibia o culto a magia e as antigas tradições; com isso, pouco a pouco, transformou a bruxa em um estereótipo do mal, da maldade e seus símbolos em demoníacos: a floresta, a noite, o fogo, o preto. E aí surgiu a bruxa como nos chegou hoje, aquela que faz maldades, mantém pactos com o diabo, se reúne na floresta para grandes convenções ao redor do fogo onde convidam o próprio diabo para festejar.
            Mas e a bruxa de hoje, como é? A bruxa sempre foi a mesma bruxa, por mais que a Igreja tenha criado uma nova, ela ainda continua a mesma. De fato a Igreja criou uma nova bruxa. A partir das sugestões da Igreja e da usurpação da fé cristã se criou a fé satânica que cultua o anti-cristo. Mas essa não é a bruxaria tradicional e essa não é a bruxa a que descrevo hoje.
            A bruxa de hoje, seja ela homem ou mulher[2], não necessariamente traja preto, não necessariamente é velha e, não é nem má nem boa, ela é o equilíbrio. A bruxa de hoje reconstrói em nossa nova cultura a mesma bruxa de antes, adaptando a magia ao mundano e o mundano a magia. Hoje as bruxas usam jeans, camisetas, saias, sapatos, maquiagens. Estudam em escolas mundanas, se graduam, trabalham, pagam impostos, têm relacionamentos, família, amigos; às vezes moram em casas com jardins, outras perto da floresta e outras ainda em altos apartamentos comprando os materiais de que precisam, outras fabricando elas mesmas. Mas todas são igualmente bruxas!
            Mesmo vivendo nessa nova cultura de modo tão moderno e antigo ao mesmo tempo, a bruxa de hoje continua cultuando a floresta, as Divindades, os Elementos, a Natureza, o Fogo, a Lua. A fé na magia que faz a bruxa permaneceu intacta mesmo depois de todos esses séculos. Hoje, talvez, possamos dizer que novas tradições de magia de criaram e que a fé única se ramificou em práticas mais do que já era ramificada antes. Novas tradições foram criadas sem desacreditar a magia, pois essas novidades em suas práticas mantêm viva a fé raiz, adaptando-a ao mundo atual. Mas há ainda as bruxas que tentam recriar e viver da melhor maneira possível a bruxaria tradicional, escolhendo uma das antigas culturas que a viviam (celtas, nórdicos, gregos, romanos, egípcios, babilônicos, sumérios, acadianos, entre outros); assim como há os privilegiados que nascerem em berços pagãos e seguem as tradições familiares passado de geração por geração.
            A bruxa de ontem predizia tempos, ajudavam heróis, decidiam batalhas e prestavam serviços à comunidade. As bruxas de hoje talvez não possam fazer tudo isso como antes, pois hoje temos dívidas com o Estado e uma tendência a um mundo público cada vez mais laico. Mas as bruxas continuam a definir jornadas e atuar as coisas a seu modo. De forma indireta elas lançam seus poderes na sociedade tentando conduzi-la ao melhor fim possível, corrigir problemas; ainda prestam serviços à comunidade, seguindo as regras morais que elas adotam consigo mesmo e geralmente através da Troca da Prata[3]. A bruxa continua comemorando seus Sabbats e Esbbats[4], se reunindo em grupos e reunindo grandes pessoas para realizar grandes feitos. Ou seja, a bruxa de hoje continua sendo tão bruxa quanto no passado, apesar de hoje não ser tão reconhecida como tal. Porém, tudo isso exige da bruxa uma tremenda responsabilidade. Ter em suas mãos o poder de moldar destinos, transformar realidades não é mera brincadeira e nem age por pura intenção. A magia tem suas regras, muitas vezes chamada de Ciência Oculta, se porta exatamente dessa maneira. Há que se estudar muito a magia e ter total fé e ciência de seus atos para realizá-la da melhor maneira possível.
            Sabemos que a palavra “bruxa” não é a única a definir praticantes da Ciência Oculta, temos ainda o feiticeiro, o mago, o druida, o vizir, o mágico, o sacerdote, o vidente, dentre outros. Mas há alguma diferença entre eles? Bem, sim. Na verdade a diferença poder ser mais cultural do que específica; ou seja, a diferença que aponto aqui não é uma concepção universal, podendo ser uma pessoa mais de um título.
            O bruxo se torna aquele que lida com a natureza, que segue uma fé clara, definida com entidades, cultos e afins. Os bruxos não têm líderes, nem hierarquia. Na verdade podemos dizer que entre os bruxos impera-se uma anarquia bem sucedida podada pela intuição e pela fé. Mas essa anarquia sempre foi positiva e nunca trouxe problemas ou desordem entre um grupo de bruxos, pois se impera o respeito e a igualdade.
            o feiticeiro, é aquele que lida predominantemente com a magia do fato, do destino. A magia falada, objetiva, menos cultual, mais solitária. Um feiticeiro não precisa, necessariamente ter uma fé definida, pois o feiticeiro pertence ao Cosmos, pertence a tudo. Por serem mais solitários é comum que não hajam muitos grupos de feiticeiros que se reúnam comumente, por isso, fica difícil dizer sobre hierarquia nesses grupos. Acredito que haja uma completa independência nesse caso.
            O mago se caracteriza pela versão mais oriental da magia. O conhecedor de rituais de alta magia, de chaves e selos e que controle seus poderes através dos rituais e de extensos treinamentos e reclusão. O mago é o mais próximo e o mais distante de sua fé ao mesmo tempo, pois ele pertence a fé sem ser subordinado a ela. Geralmente, os magos se portam por níveis, tanto de poder quanto hierárquicos.
            O druida é o mais alto sacerdote da fé celta, ele é um porta-voz dos Deuses, médico, filósofo, juiz, xamã e líder religioso. Portanto, ele é o condutor da magia e da fé celta, um interlocutor entre a natureza,os espíritos, os Deuses e os homens. Apesar de não haver hierarquia determinada entre os druidas, além da visão da matriarca, eles tem um título destinado aos maiores druidas, aos porta-vozes entre o outro mundo e esse; que são chamados de Merlin (masculino) ou Morgan (feminino). Outras duas categorias principais da religiosidade celta são os Bardos (escribas, legistas, músicos, contadores de história e poetas) e os Ovates, ou Vates (xamãs e videntes celtas).
            Vizir é o título dado ao feiticeiro imperial, o feiticeiro particular do rei. O primeiro vizir de que se tem notícia é Imoteph.
            O vidente é considerado aquele que é capaz de prever o futuro. Existem muitos dons psíquicos, esse é apenas um dos.
            O sacerdote, por definição, é aquele que guarda e conduz uma determinada fé. Hoje em dia, um bruxo pode ser sacerdote e bruxo ao mesmo tempo. Um sacerdote da magia tem que conhecer e conduzir tanto as forças na natureza como conhecer e entender a fé e as vontades espirituais e divinas.
            O mágico, bem essa categoria é mais universal, se chama, geralmente, de mágico ao famoso mágico de espetáculo, o ilusionista que cria truques para se divertir a família.
            As categorias são importantes na magia, mas mais importante ainda é você se sentir bem e se enquadrar na magia. Por mais que as categorias sejam fixas, você pode misturá-las e mesmo transitar entre elas. O mais importante é você ser quem acredita ser e conseguir o título que, em seu íntimo, você sinta ser seu. Mas lembre-se dedicação é fundamental.
            Quanto ao chamado Diabo, não se preocupe. Na verdadeira bruxaria ele pode até existir, mas não entra. A bruxa cultua Deuses antigos alguns semelhantes a imagem medieval e moderna do diabo (talvez a inspiração para ela): Pã, Green Man, Cernunnos; Deuses esses que, em geral, representam todas as criaturas vivas, a selva e as coisas silvestres, a liberdade e o fulgor da vida. Esses Deuses geralmente tem uma forma híbrida, ele é coberto ou feito de folhagens, geralmente tem as pernas e patas de um bode, e na cabeça chifres de cervo ou de bode. É dessa imagem que ansce o Diabo medieval, já que as escrituras cristãs apontam Heliel Ben-Sahar[5] (o Anjo Caído, cujo nome significa “estrela da manhã”) como o mais belo dos anjos e não como uma figura tão feita da natureza mundana.
            A partir disso, podemos concluir que o Diabo e demônios não existiam na bruxaria/paganismo ele foi trazido a ela pela Igreja. E depois que as forças demoníacas passaram a também agir na Europa, as bruxas passaram a estudar demonologia e, algumas, angiologia; não para usar dessas forças, mas para aprender sobre elas, sabendo, portanto, combatê-las.


[1] A lua nova é chamada no geral pelas bruxas de Lua Negra. E eis algumas divindades da Lua Negra: Hécate, Morrigù, Morrigan, Badh, Macha, Lilith, Lilá.
[2] Chamo aqui no feminino para primeiro polarizar o fato da magia ser dedicada e considerada feminina, apesar de abrigar ambos os sexos, e para contrariar a regra portuguesa “machista” de polarizar os sexos no masculino, polarizando assim os sexos no feminino; mas ao falar bruxas abrigo bruxos e bruxas.
[3] A Troca da Prata é um ato comum entre os bruxos desde o renascimento, quando os bruxos passaram a trocar serviços por dinheiro. Para alguns, mesmo na Arte, isso é abominável, mas se tornou uma regra social na magia, cumprida por alguns rejeitada por outros. Apesar de geralmente cobrar apenas os materiais, eu reconheço que nos dias de hoje o dinheiro é essencial para a sobrevivência, já que temos que, no mínimo pagar impostos.
[4] Sabbats e Esbbats são festivais do calendário anual pagão, dos quais falarei posteriormente.
[5] O Anjo Caído, conhecido por Lúcifer, segundo a Angiologia tem o nome de Heliel Ben-Sahar, cujo significado é Estrela da Manhã. Lúcifer, em latim Lucifero significa Portador da Luz (Luci/fero – lux = luz / fero = portador), que também era o título dado pelos romanos pagãos ao Deus do Sol, Apollo.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo seu novo blog, espero que vc colha muitos frutos positivos. Abraços

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  2. Obrigado! Que frutos positivos sejam dados a nós como fruto digno de nosso eterno trabalho, hoje e sempre... Abraços...

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